

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio
(Soneto - Chico Buarque)
:: Postado por biaquieta
às 14:45:33
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O rombo
Desde muito cedo eu sabia que havia alguma coisa errada comigo.
A lembrança mais antiga é de uma brincadeira de pique-esconde.
Caçula de seis irmãos, casa nova na cidade, brincava de esconde-esconde dentro da "venda" do meu pai, cheio de barris com mantimentos, cereais, açúcar, fubá, farinha. Eu devia ter uns quatro anos e com certeza atrapalhava a brincadeira dos mais velhos. Então, meu irmão sempre me escondia dentro do barril de farinha, talvez para me proteger enquanto eles brincavam de verdade. Eu ficava ali, dentro do barril, sentada nos flocos da farinha de milho, num mundo amarelo e fofo, rodeada por uma madeira cheirosa, com o coração sobressaltado, esperando ser descoberta.
Ali...Percebia que estava inteira, confortável, sem o "rombo"...(não tinha ainda essa percepção), mas a sensação era a mesma: Estava completa, nada faltava ou sobrava. E eu podia descansar minha alma encostando-a nos flocos de farinha.
Anos mais tarde, ganhei uma flauta doce. Acordava antes do sol nascer, sentava-me numa pedra perto do portão de entrada e tocava cantigas de ninar: "você gosta de mim, menina, eu também de você, menina...". Estava novamente inteira, mas ainda não entendia direito o que estava sentindo. Uma mistura gostosa de calor, plenitude e inteireza me invadiam.
Talvez só lá pelos quinze anos essa percepção tenha tomado forma e sido nomeada:
O rombo. Alguma coisa entre os meus seios, com mais ou menos uns 15 centímetros de comprimento por dez de largura, escuro, meio nebuloso, dolorido e insaciável nascia dentro de mim. E o fui arrastando pela vida. Achava que um dia, alguma coisa viria e taparia aquele buraco no meu peito. Talvez o amor. Talvez o ser feliz. Talvez os sonhos.
Os amores vieram. Nenhum...Curiosamente nenhum, por mais apaixonado e emocionante que fosse descobriu que havia uma ferida aberta em mim que precisava ser lavada, desinfetada, e protegida com bandagens e bálsamos.
Durante esse tempo, descobri uma coisa que era capaz de me dar a mesma sensação de proteção, conforto e inteireza igual ao barril de farinha. Nadar. Nadar sozinha em algum rio distante, sem roupa, em silêncio. Nadar no mar, além da arrebentação das ondas, com sofreguidão, tentando entender como era bom ser inteira.
Djavan cantou um verso pra mim: "Nem que eu bebesse o mar, encheria o que tenho de fundo".
Quando conheci o pai de meu filho, entendi assim que o olhei, que a mão dele cabia direitinho no vácuo acinzentado de mim. E assim foi. Mas lentamente, os dedos da mão dele foram se abrindo e deixando passar a sensação de plenitude. Na primeira vez que amamentei meu filho, olhando aquela cabecinha perfeita aninhada no meu peito e se alimentando de mim, senti ali o gosto mais doce de ser plena. Sem rombo.
Antes disso, ganhei num aniversário, uma festa surpresa. Linda, com amigos, na cozinha de um restaurante. No final da noite, sentada numa mesa, abrindo presentes, percebo que um menino amigo senta-se ao meu lado e me diz:- Ainda não lhe dei nada, mas está aqui o meu presente: Segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou. Quando senti os lábios dele nos meus, num beijo gentil e exigente, sem propósito e sem espera, o rombo sumiu, evaporou, escafedeu-se. Ele, entre o beijo, me pedia desculpas e dizia estar apaixonado por mim. Nunca mais, mesmo depois de trocentos e quinhentos beijos que ganhei e dei nessa vida, senti a mesma coisa: Ausência de buraco nebuloso por dentro.
Uma vez, no meio de uma multidão, encontro meu primeiro namorado que então havia se tornado um bom amigo. Nessa noite, Ele me olhou, e sem dizer nada me abraçou forte e ficou abraçado em mim por longo tempo, enquanto uma multidão cantava e festejava em volta. Percebi-o chorando nos meus ombros e aquele abraço molhado de lágrimas cicatrizou por momentos o dolorido rombo de ser eu.
Hoje, já amadurecida e amiga íntima desse vácuo, sei que ele vai continuar aberto, sendo ocasionalmente preenchido por lapsos de presenças na minha vida. E mais que isso, é um auto-rombo. Se eu não encontrar como cicatriza-lo, ninguém mais poderá faze-lo.
Quando leio Clarice encontro um par nisso tudo.
Mas desconfio que preciso comprar um barril antigo cheio de flocos de farinha de milho.
Ou deixar que a felicidade entre pelo rombo e me sacie de vida.
:: Postado por biaquieta
às 16:26:23
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Evolução

Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça...
Onde tudo se refaz...
Até que, um dia, nós criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda em terra.
:: Postado por biaquieta
às 22:41:50
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Há mais nos desvãos do que nas linhas dos mapas experimentados. 
Há em ti alma arqueológica?
Como embaixo de asas, dentro de mim moram dunas imensas.
E são tantos os rastros até o oásis.
Seculares e desolados dias até o abraço forte cheirando a açucenas.
E a alpendres enluarados.
Uma fruta, um gole d'água na concha da mão e o horizonte ali,
Infinito,
Boiando no lago dos olhos.
Tão imenso quanto o crepúsculo.
Heras e musgos nas entrelinhas e o lento descobrir das sombras.
Espantos ou caminhos marcados?
Nada que não possa aquietar-se.
Um olhar macio,
Um toque lento,
Uma urgência consentida,
Um silêncio compartilhado.
E que me perdoe Neruda, pelo roubo voluntário do verso:
"Para o cansaço do meu coração, teu peito basta ".
:: Postado por biaquieta
às 05:13:59
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Enquanto o impossível
acena-me possibilidades
vou sorvendo em doses lentas
os Antonios e Túlios de Hilda
sonhando com Ulisses de Clarice
ouvindo Chico da Marieta
olhando deuses gregos nas ruas
Nathanael ainda não veio
argonautas são frágeis meninos
endurecidos pelo medo
Onde o Antônio de meus dias?
Onde o Antônio de minhas noites?
Antônio ainda não chegou.
( Acredito no impossível.)
:: Postado por biaquieta
às 06:01:54
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A insana insatisfação de meu coração
ensina-me a bater em portas.
Muitas.
Umas são imensas, pesadas e não se abrem.
Outras são enganosas e não levam a lugar algum.
Existem portas que nunca se abrirão.
Não tenho a chave ou não sei bater.
Outras me assustam quando se abrem.
Céus e infernos têm portas iguais.
Ao levar a mão nunca sei qual é a certa...
Mas bato mesmo assim.
Se entro ou não depende da porção de coragem
que possuo além das amarras do medo.
Posso virar-me e desistir de entrar.
Posso tentar antever o que tem do outro lado.
Só não ouso parar de querer portas.
O que há de mais humano em mim
morreria sufocado
Sem o ar fresco das possibilidades.
Sou criança perdida no paraíso...
Sob esse sol que torra toda pele.
(Quem me dera, o alívio da expulsão !)
Enquanto a noite não vem...
Olho montanhas, sonho doçuras e planto rosas.
Isso alegra e fortalece meu coração.
Mas sei, com um leve gosto de nada na boca,
Que, enquanto acaricio meus medos,
A vida escorre entre meus dedos,
caudalosa.
:: Postado por biaquieta
às 04:47:34
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Nome: Bia Rodrigues
Apelido: Quieta
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Nasci perto de um rio. Cresci olhando montanhas e procurando pássaros.
Convivo com miudezas e texturas. Choro com gestos de solidariedade.
Gosto de corações mansos, olhares profundos e risos largos.
Noves fora, sou quieta.
Quase sempre, sou feliz.
Livio
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